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Independência, Uma História de Dependência

Ir∴ Elo Augusto Ketelhuth
A∴ R∴ L∴ S∴ 31 de Março Nº 152

À G∴ D∴ G∴ A∴ D∴ U∴


É preciso ser livre para se libertar a sociedade ou só em uma sociedade livre podem nascer homens livres?

Fazer a revolução coletiva para se atingir o individual ou começar pela transformação individual para se alcançar o coletivo.

Aqueles que saem do todo para a parte acreditam em uma sociedade livre quando isenta de sistemas políticos e filosóficos que impeçam ao homem o exercício dos direitos, da autonomia. Os que fazem o caminho inverso, da parte para o todo, acreditam em que apenas o homem livre, renova doe consciente da própria individualidade pode libertar a sociedade de toda carga opressora.

Na verdade, o que importa é uma revolução, desde que em benefício do homem, desde que em nome da Liberdade.

Qual o caminho adotado pela Maçonaria quando abraça os ideais de Liberdade que levaram à Independência política do Brasil? Homens livres e de bons costumes foram agentes da Liberdade ou a própria Liberdade forjou o nascimento de homens livres?

Vamos aos antecedentes históricos.

Escapando do pensamento verticalizado oriundo na Idade Média, que caracterizou, com algumas resistências, o mundo ocidental até a primeira metade do século XVIII, os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade alcançaram as elites da sociedade burguesa esclarecida da Europa, que encontraram nesses ideais o catalisador eficiente para agitar as massas populares em seu próprio benefício contra o poder representado pela nobreza. Afinal, a classe burguesa tinha origem no povo, falava a linguagem do povo para persuadir o povo e ascender ao poder.

Nascida mercantilista no interior do século XIV, torna-se esclarecida e chega ao poder via revolução Francesa.

Esse pensamento liberal, importado da Europa, atinge os países do Novo Mundo, encontrando solo fértil no interior dos Templos Maçônicos, descobre aí os líderes capazes também de concretizar o sonho de autonomia política das colônias européias, extremamente sacrificadas pelas metrópoles.

A equação proposta é a que homens livres aspiravam a uma Pátria livre que, por sua vez, faria nascer homens livres, num círculo vicioso cada vez mais abrangente pela abertura do compasso.

E o século XVIII assiste ao nascimento das Nações americanas numa reação em cadeia produzida pela régua e pelo compasso entregues nas mãos de:        
San Martin (1.811) – Argentina
Yegros e José Francia (1.811) – Paraguai
Francisco Miranda e Simon Bolivar (1.813) – Venezuela
O`Highins (1.817) – Chile
Lemom Bolivar (1.819) – Colômbia
Padre Hidalgo e Iturbide (1.820) – México
San Martin (1.821) – Peru
Bolivar e Lucre (1.822) – Equador

O vento da Liberdade deu a vida às nações do Novo Mundo mas, soprando da mesma forma, encontrou realidades distintas e fez nascer, sob a batuta de um príncipe português, uma Monarquia solitária entre as demais repúblicas emergentes.

No Brasil, a equação se resolveu de modo diferente: o desejo de se liberar a Pátria sob a égide republicana foi sufocado e a nação livre no grito da Independência não criou, durante a história, o cenário adequado à libertação integral de seus filhos.

Vamos a alguns antecedentes para melhor compreender a situação:
A inconfidência Mineira reuniu, em torno de si, poetas, escritores, mineradores, coronéis, padres e outros populares. Se vitoriosos, pretendiam instalar o regime republicano, criar uma Universidade em Vida Rica e fundar fábricas em todas as regiões do país, visto que as minas já se esgotavam e o eixo econômico brasileiro já se rumava para o Sul do país.

Nascida dos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que campeavam na Europa e incentivada pela recente independência americana viu fracassar seus planos e levar à forca Tiradentes e salvar a honra de homens ricos e intelectuais comprometidos com a causa.

A Conjuração Baiana (1.798), nascida no Templo da Loja Maçônica “Cavaleiros da Luz” pleiteava “a melhoria física e moral do maior número de pessoas; a abolição de todas as castas com a proclamação de um governo em que todas as classes colaborassem, conforme o valor e a aptidão dos mais hábeis; prometiam a extinção dos privilégios e restrição à propriedade excessiva de terras e de produtos comerciáveis; escoadouro franco nos portos abertos a todas as nações e mesmo a independência espiritual, criando uma Igreja Brasileira desvinculada da Cúria Romana.

Contou com a participação de homens letrados, padres, pessoas simples do povo, mulatos, negros libertos e escravos e levou a forca Luiz Gonzaga das Virgens, Lucas Dantas Amorim Torres, João de Deus do Nascimento e Manuel Faustino dos Santos, homens simples do povo.

Embora a defesa tivesse mostrado que a linguagem dos panfletos exortando o povo à revolução e defendendo a República fosse superior a capacidade intelectual dos acusados, nenhum membro da Loja “Cavaleiros da Luz” estava entre os 49 acusados, entre os quais três mulheres.

Fatores econômicos (crise na produção de açúcar), políticos (desejo de substituir a monarquia absoluta de poder divino pela República, já adotada nos Estados Unidos) e sociais (as grandes desigualdades sociais e raciais) associados às ideias de liberdade e emancipação que se espalham pelas sociedades secretas, quantéis, clero e cada vez mais no seio da população causaram a Revolução Pernambucana d 1.817. Essa Revolução deu vazão à Confederação do Equador de 1.823 e levou à forca doze líderes e condenou à morte outros 72, depois anistiados (60 padres), militares, intelectuais e populares no ideal comum de liberdade com a instalação de um governo Republicano.

A volta da Família real para Portugal agravou a crise no Brasil: as riquezas haviam sido levadas para Lisboa e crescia o clima de insatisfação e hostilidade contra os portugueses nas províncias. Inicialmente, D. Pedro procurou agir com moderação, mas essa política não era bem aceita em Portugal. Os cortes portuguesas visando a recolonizar o Brasil tomaram medidas antipáticas:
- desligaram os governos províncias do Rio de Janeiro
- suprimiram os tribunais criados por D. João VI
- ordenaram que D. Pedro entregasse o governo a uma junta submissa a Lisboa e voltasse a Portugal.

Portugal não desejava perder o Brasil. Porém, se a separação não pudesse ser evitada, convinha que a Independência se fizesse com os portugueses, mantendo os portugueses no poder.

No Brasil, os brasileiros que exerciam influência nos destinos do país estavam orientados em três direções:
- a volta do Brasil à situação de colônia como queriam as cortes.
- apoio a D. Pedro e uma Independência pacífica, sem lutas, com a instalação de uma monarquia absolutista chefiada pelo príncipe.
- grupo ligado aos movimentos liberais que queriam a República com o apoio dos Estados Unidos.

Tornou-se vencedor o grupo ligado a D.Pedro que já estava no poder e que seria beneficiado pela Independência feita sem a participação popular e representativa dos grandes proprietários de terra e donos de engenhos.

Há que se dizer que D.Pedro rompeu com grupo que o apoiou um ano depois da Independência.

Sufocados os movimentos populares de tendência republicana, nasceu um Brasil livre dos laços portugueses, mas entregue em mãos portuguesas sem qualquer herança ou raiz histórica que as comprometessem com a formação de uma Pátria em busca do próprio destino; mãos que sequer se intimidaram a entregar uma Pátria recém-liberta aos interesses dos ingleses.  

A adoção do regime monárquico nesses moldes criou no Brasil um quadro do qual não nos livramos até hoje: das antigas oligarquias canavieiras ao atual neo-coronelismo baiano pouco muda; das antigas elites tipicamente feudais dos senhores de engenho aos “lobbies” corporativistas do Congresso Nacional muda-se apenas o rótulo; da antiga colônia à Fazenda Modelo como diz Chico Buarque pouco muda.  

Dessa estrutura arcaica, centralizada e paternalista nascem como consequência o socorro a bancos falidos, o subsídio a montadoras de automóveis e o iminente perdão a caloteiros da dívida pública.  

Paralelamente, mas em razão inversa, nasce o abandono das questões sociais e o brasileiro entregue à própria sorte, sem educação, saúde, assistência social e segurança, aguardando a vinda de um Messias que poderá devolver-lhe o orgulho de vestir a bandeira longe dos gols milionários, das cortadas maravilhosas, das cestas magníficas ou dos lances mágicos de esporte que jamais praticará.  

Maçons, somos herdeiros e responsáveis em manter aceso o antigo sonho de nossos irmãos, de construir a pátria livre que libertasse o homem; a Pátria representativa das necessidades e dos direitos de um povo verdadeiramente livre.  

Construir implica agir. Construtores sociais implica abandonar o imobilismo amorfo e cômodo de ignorar a situação como se ela não lhe dissesse respeito porque não atravessou as barreiras do seu quintal. Implica a coragem de assumir posições, abandonando os holofotes, os “spots”, a prepotência, a vaidade e o orgulho, e buscar a escuridão de vida e o grito rouco das “arraias miúdas” porque é ali que a luz se faz necessária; é ali que existe um povo preso à miséria e à ignorância que sonha com quem o liberte. Que pede a libertação.  

A Pátria não pode mais aceitar quem crie teses e disserte sobre problemas sociais, vivendo na ilusão de um passado harmônico e equilibrado, sentado em confortáveis poltronas Plim-Plim na sala de casas de altos muros com portões eletrônicos e segurança particular. A pátria pede urgência.  

É preciso que esses construtores sociais cultivem e coloquem em prática valores semelhantes àqueles que exterminaram o “apartheid” na África do Sul; valores semelhantes ao “new deal” de Roosevelt que permitiram combater a recessão econômico nos Estados Unidos; valores que transformaram Alemanha e Japão, devastados pela guerra, em potências mundiais em pouco mais de meio século. Valores universais pelos quais vale a pena viver e pelos quais vale a pena morrer.  

Os grandes antigos construtores sociais quando queriam propagar altas virtudes, punham seus Estados em ordem. Antes de porem seus Estados em ordem, punham em ordem suas famílias. Antes de porem suas famílias, punham em ordem a si próprios. E antes de porem a si próprios em ordem, aperfeiçoavam suas almas procurando ser sinceros consigo mesmos, ampliavam ao máximo seus conhecimentos do universo e do homem. Com o aperfeiçoamento da alma e o conhecimento do universo, o homem se torna completo. E, quando o homem está em ordem, sua família estará em ordem, o Estado que ele dirige também fica em ordem e o mundo inteiro gozará de paz e prosperidade.